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Prato Cheio

Peixada

Texto da Psicopedagoga Clínica, Professora, Consultora e Palestrante Isabel Parolin do seu novo livro A Aprendizagem entre a Família e a Escola,  no qual ela traz um belo relato para repensar alguns encaminhamentos educativos, que acontecem na pressa do dia-a-dia, muitas vezes, de modo irrefletido e com repercussões não desejadas.

Aproveito, também, para convida-los/as a fazerem um exercício de pensarem outras possíveis ou melhores respostas, que poderiam ter sido dadas à essa aflita mãe-educadora.

Vamos ao episódio e a seguir, a resposta que me ocorreu no momento:

Profª Isabel, eu a achei no Google e pelo que vi em seu site, a senhora vai poder me ajudar. Estou injuriada e gostaria da sua ajuda (ou será consolo?). Não quero ser nem injusta e nem boba, por isso a minha busca de esclarecimentos para aquietar meu coração de mãe aflita. Sinto-me um ET.

Fui a um almoço, domingo passado, na casa de uma amiga, que estava recebendo outras amigas, que eu desconhecia. Eu tenho 35 anos, sou casada e tenho um filho de 7 anos e a minha amiga também. No almoço estávamos em cinco casais e quatro crianças. A dona da casa fez uma peixada com arroz e eu sabendo disso, combinei com o meu filho que ele comeria o que a dona da casa servisse e ponto final. Depois, em casa, ele poderia comer mais alguma coisa, se fosse o caso. Trato feito, fomos ao almoço.

O almoço ficou pronto e a minha amiga nos chamou para sentarmos. Ao lado da nossa mesa estava a mesa das crianças. Sentamos e ficamos aguardando a minha amiga terminar de aquecer a panela e servir. O marido dela sentou-se na ponta da mesa e conversávamos alegremente quando, o filho dela (da mesma idade do meu) disse para o pai: “Saia daí que eu quero sentar nesse lugar”. O pai disse algo inaudível e a mãe, talvez por já conhecer esse comportamento, lá do fogão alertou: “Fulano! Não comece… Deixe seu pai em paz!” O menino insistiui: “Saia pai, eu quero sentar aqui.” E foi, levemente, empurrando o pai do lugar. O pai riu para nós e afirmou que ele fazia o mesmo, todas as noites, na cama deles e que ele acabava dormindo no meio deles. Enquanto falava, pegava um banquinho e sentava-se na quina da mesa, dando o lugar de honra para o filho (que tem a idade do meu, lembra?).  Imediatamente após a troca de lugar, o menino perguntou à mãe o que tinha para o almoço. Ou seja, dominou a mesa e as atenções. A mãe o fez lembrar que era peixada e arroz. “Mas eu não como peixe, você sabe disso!” A mãe, que estava colocando o arroz numa tigela, parou e disse: “Eu esquento a carne de ontem, fique tranquilo!” Meu filho, ao ouvir isso, chegou a levantar-se da mesa e me olhar, como que me dizendo: “Ele não precisa comer o peixe e eu preciso?” Fiquei meio sem jeito e na dúvida fiz sinal para ele aguardar. A minha amiga parou o que estava fazendo e foi esquentar a carne para o filho dela.

Enquanto isso, dez adultos e três crianças aguardavam. O arroz ficou esperando na mesa e a peixada esfriava no fogão. Nisso, uma outra criança falou: “Mas eu prefiro carne…” Animada pela iniciativa arrojada da menina, ouvi meu filho afirmar, timidamente: “Eu também!” Eu o fuzilei com os olhos e, imediatamente, ele sentou-se. Eu queria que ele se lembrasse do que havíamos combinado. O meu marido, horrorizado, nem me olhava…

A minha amiga não tinha carne suficiente para todas as crianças e o marido dela levantou a hipótese de ir ao supermercado. “Não!” Fomos unânimes e, olhei para o meu filho e perguntei: “Combinamos que você viria comigo e que você comeria o peixe. Não foi?” Ele concordou. “Então?” Perguntei. Um outro pai, aproveitando a minha fala, agiu do mesmo modo  A outra mãe se fez de surda-muda.

Bem, a partir disso, segui-se uma trabalheira de esquentar a carne, servir as duas crianças eleitas (a da mãe surda-muda) e o menino-anfitrião (filho da minha amiga e criança da mesma idade do meu). Finalmente, pensei ter terminado o que me pareceu ser um episódio corriqueiro daquela família (ter uma comida especial para o menino e o menino comandar os pais, à mesa e na cama). Mas, não havia terminado! Quando a mãe o serviu, o menino falou: “Não se esqueça do prato bem cheio de sorvete”. “Eu sei!” Afirmou a mãe dele, já meio sem paciência (ou será envergonhada?). Baixei a cabeça, fingindo que arrumava não sei que…

Ainda esperando o já famigerado e frio peixe, assistimos a mãe colocar, ao lado de um prato com carne e macarrão (Sim! Ele não comia arroz, também), um prato generoso de sorvete com bolacha e, finalmente, nós os adultos e as duas crianças, pudemos almoçar.

O menino, na ponta da mesa comeu um minúsculo pedaço de carne, ciscou um pouquinho da massa e comeu todo o sorvete com biscoitos waffers. O que sobrou de carne do prato dele teria dado para o meu filho e a filha do outro casal almoçarem, pois claramente, ele almoçou sorvete com bolacha. A quantidade de sorvete e bolacha que ele comeu, teria sido suficiente como sobremesa para todos nós. A mãe (minha amiga) nos olhou, em busca de cumplicidade e desabafou, parecendo estar exausta: “É difícil satisfazer as crianças, né?” Confesso que, apesar de sermos amigas, estava tão assustada com tudo aquilo, que não tive coragem de concordar. Baixei a cabeça e continuei comendo, apesar de sentir um bolo no meu estômago.

Na volta, meu filho queria me matar e meu marido me perguntou: Será que estamos errando na educação do nosso filho ou somos uns otários? Fiquei pensando se ele pode ficar traumatizado por ter de come peixe (que estava delicioso, mas meio frio) sem gostar muito? Deveríamos tê-lo deixado comer o macarrão (pois não tinha carne pra ele), já que o dono da casa (amiguinho dele) também não comeu o que foi servido? Fiquei meio sem jeito, afirmou ele.

Pois te confesso: Fiquei insegura…

Bem, o que você me diz? Espero ansiosa a sua resposta.

A ela, assim respondi:

Ufa! Quanta coisa aconteceu nesse almoço…. Quantas coisas foram perdidas, além do tempo de espera… Quantas coisas teu filho e a outra menina ganharam, sem que os outros saibam…

Começo afirmando que o teu filho (amigo do dono da casa) saiu ganhando mais do que você imagina. Educar é humanizar, trazer à cultura e viabilizar que eles se socializem, nesse movimento interativo entre pessoas e o mundo, as crianças se individuam e entendem qual é o papel deles diante e no mundo. Educar, portanto, uma criança é promover que ela se aproprie do patrimônio cultural do contexto no qual está inserida.  Será nesse processo que a criança construirá sua autoimagem e fará a sua inserção no mundo. Para tal, necessitará de mediadores competentes – pais, familiares e educadores de modo geral, que lhes apresente o mundo e um modo (filosofia de vida) de viver e conviver nessa sociedade.

Sendo assim, surgem as primeiras perguntas: por que as crianças não comem a comida que seus pais comem? (cultura) Em que mundo essas crianças vivem?(contexto social) Por que elas acabaram desenvolvendo gosto e hábitos alimentares tão diferentes de seus pais? (cultura e socialização) Por que a palavra do pai e da mãe ficou perdida? (socialização)

Já posso ouvir um coro de pais e avós afirmando que a criança não gosta de tal coisa, não come de jeito nenhum… Será? Pois afirmo o que aprendi com nutricionistas: O paladar se desenvolve, fica mais complexo e elaborado a partir das experiências gustativas vividas.  Tem criança que passa a infância comendo macarrão, carne, sorvete e bolacha…Essa crianças não gosta ou sequer experimentou? Ela não gosta ou está acostumada a ser atendida no que é, aparentemente, mais fácil para os pais? Será que esses pais não atendem esses “não gosto” para não terem de entrar em embates, explicações, ou seja, educar? Ter o macarrão na geladeira é menos trabalhoso que educar, sem dúvida.

Na história relatada, uma criança de sete anos domina um almoço de adultos, alimenta-se mal, tendo um grupo de adultos e três crianças por testemunha, demonstra não entender os papéis de autoridade, de filho, de pai e mãe e de visita. Não aprende a receber amigos, a conviver adequadamente, reafirma seu estilo de alimentação pouco saudável e, ainda mais, faz do seu pai de tolo- sem autoridade, da mãe uma pessoa sem palavra, e deixa você, cara mãe,  aflita. Isso, sem considerar o que as crianças pensaram dessa “exitosa” performance.

Nossa! Que desencontro… Aposto que não é isso que sua amiga e o esposo dela sonham para essa criança. No entanto, é isso que estão vivendo e essas ações geram aprendizagens, conceitos, certezas. Lembre-se do menino dizendo: “Não esqueça do prato bem cheio de sorvete”. E que a mãe respondeu: “Eu sei!”? Eles já estabeleceram um padrão de relação e um conceito. Há um subentendido que é: “só como se o sorvete estiver disponível”. Não acha? Lembre-se, também, quando o pai saiu do lugar que ocupava na mesa e fez uma relação com a “saída dele da cama”? Penso que é como se ele estivesse dizendo que ele sai da mesa, sai da cama e sai, também, da responsabilidade de educar. Tanto é que ele não reagiu, só obedeceu. Que triste você não acha? Principalmente, por que talvez, os pais não tenham clareza do que estão semeando. E quem semeia, colhe… Ouvi alguém afirmando que quem ganha de seu pai, perde para a vida!

Quero repetir: A criança precisa perceber e viver sob a autoridade de seus familiares e de seus educadores, para entender a lógica da dinâmica familiar e de como o mundo funciona. É em meio a esse movimento relacional que a criança se apropria do modo de viver e de conviver dos seus pares e se insere nele.

O que acontecerá com essa criança enquanto o mundo funcionar como ela deseja? Me parece óbvio: Ela aprenderá que o seu desejo faz o mundo funcionar do seu jeito! Simples assim. O que acontecerá com essa criança quando ela descobrir que o mundo não funciona tal qual o seu desejo? Não sabemos. Desacostumada a não ser atendida, obedecida, admirada terá ela energia, disposição e sabedoria para entender o que está acontecendo? Essa resposta é uma incógnita. Contudo, o que precisava ter sido construído, os alicerces de uma pessoa pronta para viver a diversidade, ao lado do diferente e das diferenças, ou até mesmo, de acordo com o que as pessoas vivem, me parece, a partir do seu relato, não foram estaqueados.

Qual tem sido o caminho educativo escolhido por esses pais? Será que eles pensam que ao agradar, incondicionalmente, o filho, estarão produzindo uma melhor pessoa? Talvez esse seja o motivo deles, mas não será esse o resultado. Aliás, o efeito é ao contrário. Não é preciso esperar o futuro, ele já foi desagradável, pelo menos para você e sua família e, talvez, seja também a seus pais. Você observou um cansaço na mãe e um desconforto no pai. Claramente, esses pais não estão preparando o filho para que ele viva as dificuldades, o desprazer. A criança torna-se pouco resiliente e, construindo-se frágil, como arregimentará forças para enfrentar adversidades?

Querida e competente mãe aflita: O prato daquele menino, amigo do seu filho e filho da sua amiga, estava cheio de guloseimas e de prazer – momentâneo. Ao não aprender a respeitar seus pais, a comer adequadamente, a pensar em seus amigos e nas visitas, sem saber, essa família prepara um outro prato, cheio de incompreensão e de desafios que, talvez esse filho, não tenha condições de enfrentar e vencer – que é o prato da vida.

Espero ter sossegado teu coração e te desejo forças para o enfrentamento de situações educativas.

Agora, caro/a leitor/a, compartilho com vocês:

Mas afinal, pergunto: Que “deficiência” têm essas crianças que não podem comer o que seus familiares comem? Que precisam de cardápio especial?

Não há deficiência (diabetes, celíacos, etc) há carência… de educação.

Ao atender todos os desejos dos filhos, os pais e familiares promovem que as crianças construam conceitos que a vida cotidiana não poderá confirmar. Como ele reagirá diante disso? O desprazer faz parte do cardápio da vida. Como esse menino reagirá quando alguém lhe disser não? E se ele não conseguir sentar-se no lugar de honra na mesa da vida?Terá ele condições de fazer parte de um grupo e compartilhar os acontecimentos que estão inerentes ao pertencimento?

Duvido. De verdade, duvido.

A não ser que essa família descubra que educar é, também, dizer para o filho: Hoje temos visita e o prato que preparamos (sim, preparamos, pois as visitas eram da família) foi peixe e todos comeremos peixe. Ou contratariam com ele, antes da reunião de amigos, um procedimento qualquer, mas que contemplasse os amiguinho. Ou ainda, esse pai diria: o lugar é do papai e você senta com as crianças, teus amiguinhos. Desse modo a mãe não precisari intervir: “Não incomode o teu pai.” Essa mãe encaminharia afirmando: Não meu filho, primeiro você almoça, adequadamente, depois todos nós comeremos a sobremesa, juntos.

Notaram que a mãe aflita chamou a peixada de famigerada? O que era para ser um encontro prazeroso, entre amigos, tornou-se um tormento, pelo menos para aquele casal e seu filho. Ao bem educar o seu filho, ao aguentá-lo querendo “matá-la”, ao ensiná-lo que nem sempre as coisas acontecem como gostaríamos, aquele casal semeou muitos outros momentos de prazer, apesar de tantos outros de trabalho educativo, que não deixa de ser prazeroso, se nele houver um sentido.

E vocês? Que resposta dariam?

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